20/05/2026 as 17:33
QUALIDADE DA EDUCAÇÃOAnálise feita por Alexandre Nicolini com base nos dados do Enade Licenciaturas 2025 demonstra que modelo atual de formação docente não garante a qualidade necessári
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“Quase metade dos futuros professores formados em 2025 não demonstrou proficiência adequada na avaliação nacional e esse é um sinal de alerta para a qualidade da educação básica brasileira nos próximos anos”, afirmou nesta quarta-feira (20) o pesquisador e especialista em gestão acadêmica e avaliação do ensino superior, Alexandre Nicolini.
Segundo a análise do pesquisador, com base nos dados do Enade Licenciaturas 2025 divulgado pelo MEC, a expansão desenfreada da EAD nas Licenciaturas está comprometendo a qualidade da formação de professores: “O modelo atual não garante a qualidade necessária e o volume de professores com formação abaixo do nível mínimo que chegarão às salas de aula é alarmante”, diz Nicolini.
“Com 70% dos alunos de Pedagogia nos conceitos mais baixos, que formação estão recebendo os professores que educarão nossas crianças?”, questionou o especialista. “São 70.550 futuros pedagogos com conceitos 1 e 2 segundo o Enade, e esse contingente é que irá atuar majoritariamente na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental”.
Segundo Nicolini, “os dados divulgados revelam disparidade histórica entre o ensino presencial e a distância e expõem uma crise na formação de professores: dos 196 mil concluintes das Licenciaturas avaliados, 42,3% estão abaixo do nível básico de proficiência e a modalidade EaD concentra de forma inédita os piores indicadores. E a pergunta que fica é se a modalidade determina a qualidade ou se a qualidade atrai alunos para a modalidade”, ele afirma.
Alexandre Nicolini destaca que Pedagogia, maior curso do país, tem 70% dos alunos nos conceitos mais baixos. “À luz desses números, questiona-se se a regulação da educação a distância precisa ser revista. Mas o artigo 62 da LDB e o Decreto 9.057/2017 estabelecem as regras para oferta de EAD, mas os dados de 2025 sugerem que o modelo atual não garante a qualidade necessária”.
Nicolini cita como exemplos cursos que têm desempenho muito baixo na EAD, como Música (29,2%) e Letras-Português e Inglês (33,1%). “São áreas que exigem prática supervisionada, interação síncrona e feedback imediato, elementos difíceis de replicar a distância”, afirma.
Segundo o especialista, o dado mais contundente do Enade Licenciaturas é a disparidade entre as modalidades: “Na modalidade EAD foram 116.982 concluintes, sendo que apenas 54.839 (46,9%) se situaram acima do nível básico. No presencial, foram 79.077, dos quais 58.407 (73,9%) estão acima do básico”.
“As cinco áreas que apresentaram as maiores diferenças negativas entre as modalidades de EAD e presencial foram Educação Física (-33,6 pontos percentuais), Artes Visuais (-29,5), Pedagogia (-29,3), História (-28,6) e Letras-Português e Inglês (-27,8), sendo que em Educação Física, uma modalidade que depende intrinsecamente de prática presencial, a diferença é a maior registrada entre todas as áreas avaliadas”, destaca Nicolini.
“A área de Letras-Português e Inglês na modalidade EAD, por sua vez, tem o pior percentual absoluto entre todas as áreas avaliadas (apenas 33,1% dos concluintes estão acima do nível básico), o que significa que dois terços dos futuros professores de línguas formados a distância não demonstram proficiência adequada”, ele afirma.
“E Pedagogia, o curso com o maior número absoluto de concluintes (100.680, entre EAD e presencial), é também o epicentro das tensões na qualidade formativa: 70% dos concluintes estão nos conceitos 1 e 2 (os mais baixos) e apenas 17,8% estão nos conceitos 4 e 5 (os mais altos), sendo que no conceito 2 isoladamente estão 43.111 alunos, nada menos que (42,8%) de todo o curso”, diz Nicolini.
“A análise mostra que as instituições públicas lideram o ranking geral, com os maiores percentuais totais de alunos acima do básico: Municipal (78,5%), Federal (75,9%) e Estadual (73,3%), sendo destaque em volume as públicas federais com 40.209 alunos presenciais e 77,3% de proficientes ”, ressalta o especialista.
“As instituições privadas, por sua vez, fecham a lista com os piores índices: nas privadas com fins lucrativos, apenas 46,8% dos 99.797 alunos estão acima do básico, enquanto nas sem fins lucrativos, 45,3%. Juntas, as duas categorias privadas concentram 112 mil alunos (57% do total) e têm os menores percentuais de concluintes acima do nível básico”, conclui Nicolini.
Sobre Alexandre Nicolini: É pesquisador e consultor em gestão acadêmica, aprendizagem e avaliação no ensino superior e pesquisa aplicada em educação, com quase 30 anos de atuação. Doutor em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), com estágio de doutoramento na Paris IX, mestre em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e administrador de empresas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Especialista em design curricular e avaliação de aprendizagem, participa da construção das políticas públicas de avaliação do ensino superior desde 1996, e tem grande experiência como pesquisador e orientador no stricto sensu e como gestor acadêmico, inclusive como reitor. Foi também avaliador ad hoc do Ministério da Educação (MEC) e líder de pesquisa na Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração (ANPAD). Publicou mais de 60 artigos científicos sobre o ensino superior, que geraram mais de 800 citações. Seu artigo intitulado "Qual será o futuro das fábricas de administradores?" é um dos mais citados na área de Administração no país.